Crítica teatral escrita por Luciano Oliveira. Publicada originalmente em: https://lucianodiretor.com/2025/04/04/nauru-o-poeta-das-guerras-da-arte-e-da-vida/
Os ecos de Naurú continuam reverberando nos nossos sentidos.
A natureza pede socorro: me salvem dos “negócios”, dos “negócios”, dos “né.gó.ci.os”.
O sangue nos olhos; o sangue no arame farpado; o sangue na terra desértica pelo desmatamento; o sangue que corre nas veias dos rios intoxicados; que jorra pela boca dos
animais; que, como lágrima de borracha, se derrama das árvores, e pelas árvores.
Flor.Esta. Flo.Resta!
Os gritos de Naurú ainda ecoam nos nossos ouvidos!
Naurú é força. É arte. É vida. Naurú é espetáculo que flui grandemente, como poesia, pelo
grande palco arredondado da experiência. Que com seus olhos vê o céu sem fumaça, repleto de luzes coloridas, de estrelas e de aves noturnas que gorjeiam.
Naurú também é dia. Naurú é bebê e criança. Brincadeira. É ainda adulto que se fere e
doente que se cura. Naurú é preto. Naurú é mulher. Naurú é afeminado. É minoria.
Naurú é ancestral, seja do vasto e rico continente africano, seja dos povos originários das
américas feridas pela cobiça europeia.
A flor.que.resta da Amazônia é Naurú. É puro poema, diria Carlos Drummond de Andrade.
Mas, infelizmente, essa vastidão de verde tem versos em branco: seria o cerrado ou os
desmatamentos?
Naurú não é guerra. Todavia, luta as batalhas da guerra para salvar a vida.
O “Xapiri Pê” é um guerreiro Naurú: um coletivo de artistas democratas que, como um
manifesto, combate a violência institucional. Esta, que como monstros sombrios, vem de
dentro. Que luta contra a grilagem de terras. Os maus políticos. Os ditadores e as suas
ditaduras. Que combate a má polícia e apoia os bons policiais. Que a.ti.ra na bu.rri.ce.
Ditadura nunca mais. Precisamos de verdade, memória, justiça… E reparação!
A força e a poesia de Narú se vê emblematicamente na bandeira. No suor do trabalho do
agricu-Ator.
Narú é rito, caboclagem, dança, linguagem desconexa, dialeto. Marcação. Demarcação já!
O coral da floresta, composto por naipes de onças, cantos de pássaros e roçar das folhas,
também é Naurú.
Mas em nome do progresso, do comércio e do agronegócio, querem calá-lo.
As ordens militares, os tiros de escopeta e de metralhadora, os roncos de motores de tratores e de hélices de helicóptero não calarão a sabedoria do “Poeta das GuErras”.
Censura nunca mais!
A arte é para todos e para os mais diferentes lugares, diria Naurú frente a negação do espaço público pelas forças que querem o silenciamento. Não, o sábio poeta não se calará!
E exigirá o que é seu de direito: a terra, as águas, as riquezas e o teatro.
Ah, o teatro! Naurú convoca Brecht e Artaud. Chama, dialeticamente, a loucura deliciosa
para a criação. Requer uma dose de insanidade. Até um pouco de cachaça. E muito axé!
Naurú aclama os mortos pela ditadura e os ambientalistas assassinados pelos gananciosos
dos frutos da terra. Cuidado, estes pertencem à natureza. E ela se vinga!
Naurú é história, filosofia, dramaturgia, biologia. São os conhecimentos amazônicos (e
“amazônidos”). É Rondônia. Brasil. América Latina. É “mundo, mundo, vasto mundo”!
Naurú é teatro contemporâneo.
“Naurú *** Poeta das GuErras” é um espetáculo de 2025 criado pelo “Coletivo Xapiri Pê”, de
Porto Velho, que dialoga com o presente. Mas não esquece o passado. E se preocupa com o futuro.
Créditos das imagens: Fotos de Raquel Melyssa, Thales Gomes e Matheus Duarte
Sobre Luciano Oliveira
Luciano Oliveira, 44 anos. Encenador, ator, produtor e professor de teatro. Docente do curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Pós Doutorando no “Programa de Posdoctorado en Ciencias Humanas y Sociales” da “Facultad de Filosofía y Letras” da “Universidad de Buenos Aires” (UBA). Doutor e Mestre em Teatro pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC); Especialista em História da Cultura e da Arte pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e bacharel em Artes Cênicas – ênfase em Direção Teatral – pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).


